8 de fev. de 2011

A FAMÍLIA E AS PREOCUPAÇÕES COM O BULLYING

O último tema vencedor da enquete foi o de relações familiares, e por que não falar sobre o Bullying? É um assunto abordado por escolas, mas nem por isso quer dizer que é um assunto escolar. Muito pelo contrário, o Bullying é um assunto antes de mais nada FAMILIAR. Com o período de volta às aulas, acredito que seja um tema pertinente aos pais.

Só para revisar: O Bullying é o comportamento agressivo despropositado e sem motivação direcionado à vítimas potenciais (pessoas com alguma característica diferente como o peso, tamanho de partes do corpo, uso de óculos, ausência de status social, etc) em ambientes sociais. Essa agressão pode ocorrer em ambientes diferentes: escolas, cursinhos, clubes, ambiente de trabalho, entre coleguinhas de bairro e até mesmo nos locais mais inusitados (como contra alvos desconhecidos por motivos de homofobia, por exemplo), e atinge todas as faixas etárias. A agressão pode ser física, verbal, e ou moral.

Atualmente temos visto nos jornais diversos exemplos de comportamentos desse tipo:

- nos EUA uma criança de 09 anos de idade atirou e matou sua madrasta que estava grávida, com a arma de caça que seu pai o presenteou;

- no Rio de Janeiro um grupo de jovens de classe média alta "divertem-se" à noite espancando empregadas domésticas, prostitutas, homossexuais e trabalhadores de baixa renda pelas ruas, o caso só ganhou credibilidade graças às gravações de uma câmera de segurança de um posto de gasolina que flagrou a violência contra uma empregada doméstica;

- em São Paulo outro grupo de jovens é identificado como autor de diversos espacamentos de homossexuais em uma movimentada avenida da capital. As vítimas são escolhidas pela aparência física e um dos espancamentos quase levou a vítima ao óbito. As agressões são flagradas por câmeras de segurança de um prédio, e mesmo após a entrega das imagens à polícia e a divulgação na mídia, o mesmo grupo é flagrado novamente pelas mesmas câmeras cometendo novas agressões;

- no youtube é possível flagrar diversas brigas em portas de escolas entre adolescentes, que são filmadas e postadas pelos próprios colegas de escola através dos celulares com câmera;

- nas escolas tornam-se cada vez mais comuns brincadeiras como "corredor polonês", ou ainda apenas "corredor", "esculacho", "puxão de cueca", bem como estão cada vez mais frequentes o uso de apelidos jocosos, depreciativos e os xingamentos e uso de nomes chulos entre as crianças e adolescentes;

- através de redes sociais e sites de relacionamento é possível identificar páginas e páginas dedicadas à desmoralizar, ofender e destruir a imagem das vítimas de Bullying;

- em clubes, bares e casas noturnas as brigas e espancamentos por causa de leves esbarrões entre estranhos (mais do que normal em locais lotados) tem levados diversos jovens à paraplegia, tetraplegia, deformidade física e mesmo à morte;

- nem vou comentar o Bullying no ambiente de trabalho...

Mas de onde vem esse comportamento nos grupos sociais? Qual a origem cultural, sócio-histórica disso ainda quero pesquisar, mas de início vou ater-me ao básico, o grupo básico de formação social: A Família.

A família é a estrutura inicial onde os comportamentos sociais se manifestam e são modelados. Desde cedo uma criança aprende como deve portar-se socialmente: não coma de boca aberta, não fale de boca cheia, espere a sua vez para falar, você precisa usar roupas, precisa tomar banho e andar cheirosinho, precisa comer com talheres, diga por favor e obrigado, etc... Mas não somente as ordens de conduta são aprendidas – tenho certeza que muitas mães e pais estão se dizendo agora: mas eu cansei de falar pro meu filho não arrumar confusão, já até o castiguei diversas vezes, eu ensinei correto, mas ele faz tudo diferente. Pois então agora vem a explicação: as crianças aprendem não apenas pela audição, mas também pela visão, pelo tato e por associações de estímulos. Além do aprendizado por observação direta, também existe o aprendizado por vias abstratas. Ou seja: não adianta falar pro seu filho que não deve mentir e pedir que ele minta no telefone para algum contato indesejado dizendo que você não está em casa, também não adianta ensinar para o seu filho que não se pode bater em crianças pequenas, se todas as vezes que ele faz algo de errado você o impõe um castigo físico (bate nele), e por aí vão outros milhares de exemplos.


A responsabilidade da família hoje não é apenas a de manter uma criança livre de doenças somáticas e frequentando regularmente uma escola. A família é a responsável pela formação do indivíduo, sua personalidade e seus traços básicos de caráter, e é a partir dessa formação que acontecerá o trabalho das escolas e das instituições sociais de formar cidadãos. Perceba que indivíduo e cidadão são conceitos diferentes! Primeiro a família formará a estrutura básica do indivíduo e só a partir dessa formação as instituições sociais poderão exercer a sua função de formar cidadãos.

A personalidade e caráter de uma pessoa são estruturados inicialmente pela formação familiar, ou seja, através da observação dos padrões de relacionamento, a absorção do sistema de valores empregados à criança, as crenças sobre a vida e os relacionamentos que são transmitidos no dia a dia na convivência familiar. Essa formação da estrutura básica ocorre desde o nascimento até a idade de sete anos, aproximadamente, conforme a maioria das teorias psicológicas vigentes. Nesse processo a criança absorverá os padrões de relacionamentos amorosos (observe: a maioria das mulheres vítimas de agressão doméstica vivenciaram em suas infâncias a violência doméstica entre seus pais), familiares (observe: normalmente o valor dado à um idoso corresponde ao valor que esse idoso deu a seus pais quando era mais jovem, na presença de seus filhos), sociais, profissionais, acadêmicos, etc... Portanto, mesmo que você nunca tenha levantado a mão para o seu filho, se você o agride ou agride outras pessoas na presença dele de outras formas, você está ensinando um padrão agressivo à esta criança, pois lembrem-se: OS PAIS SÃO OS MODELOS DE APRENDIZADO DOS FILHOS.

Antes de dizer que seu filho se comporta de maneira inadequada, pare e analise o seu comportamento diante seu filho e as demais pessoas. Como você trata sua esposa/o? Como você trata sua empregada? Como trata seus pais? Como se refere aos amigos, aos colegas de trabalho e ao seu patrão? Como é sua atitude no trânsito? Como se refere às pessoas "desconhecidas" (famosos expostos em tablóides, professores e orientadores de seus filhos, vizinhos, amiguinhos e pais dos amiguinhos de seus filhos? Você está refletindo comportamentos que vão educar seu filho para ser uma pessoa admirada e querida, ou para ser uma pessoa indesejada? Os pais são os heróis de seus filhos, e heróis não são aqueles que não tem defeitos, mas sim aqueles que sabem reconhecer seus defeitos e buscam aperfeiçoar-se. Todos temos defeitos, poderia até mesmo dizer que é praticamente impossível ter um comportamento absolutamente irrepreensível, mas isso não quer dizer que devemos ignorar nossas falhas.

O ideal diante um comportamento inadequado de seu filho é refletir sobre seu próprio comportamento (recorra até mesmo ao auxílio de um psicólogo se necessário) e mais que imediatamente demonstre ao seu filho que você também está agindo errado, e que ambos devem corrigir esses defeitos, pois para convivermos no mundo de hoje e construir uma realidade decente para o futuro devemos sempre buscar sermos pessoas melhores.

Por isso, se nesse ano letivo a escola o procurar para dizer que seu filho está brigando na escola, ou que se envolveu em alguma situação embaraçosa com outro coleguinha, ou mesmo que está sendo vítima de agressões na escola, não martirize a criança, mas converse francamente com ela. E não espere apenas pela escola, mas investigue e esteja a par da atividade social e virtual de seus filhos. Tente identificar onde no ambiente familiar esse tipo de comportamento pode estar sendo encorajado e mostre que existem outros caminhos, busque exercitar novos comportamentos com seu filho. Leve seu filho a buscar e dar o perdão, a ser mais tolerante e compreensivo, a ser mais consciente e respeitoso com as demais pessoas. As recompensas retornarão hoje dentro de seu lar, e no futuro ao ver o seu filho um jovem admirado socialmente ao invés de notícia no jornal devido comportamentos inadequados.




*Reflexão:

Imagine que bênção seria se todos os políticos tivessem aprendido com suas famílias que é feio e repreensível roubar, mentir e enganar... Imagine se as famílias não aceitassem o dinheiro sujo da corrupção para viver em luxo e ainda denunciassem quando descobrissem tais comportamentos? Esse é só um pequeno exemplo...

VEJA ESTE ARTIGO TAMBÉM EM:  www.revistapalavra.com.br/psicologia

Um comentário:

  1. "(...) estrutura básica ocorre desde o nascimento até a idade de sete anos (...)".

    Interessantíssimo Dra.Carolina. Penso que os pais na maior parte não têm consciência do quão importante é essa fase de desenvolvimento das crianças, que a partir de certa idade, tentaremos reformular na clínica o que eles ensinaram!.

    Um grande abraço!

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